Relatos de soldados durante a Primeira Guerra Mundial

“Apareceram primeiro uns esqueletos de companhia, conduzidos as vezes por um oficial sobrevivente que se apoiava num bastão; todos andavam, ou melhor avançavam passo a passo, com os joelhos dobrados, inclinados sobre si mesmos e cambaleando como se estivessem bêbados (…) iam com a cabeça baixa, o olhar sombrio, encurvados pelo peso da mochila e do fuzil. A cor de seus rostos não se diferenciava dos capotes, de tal maneira estavam cobertos e recobertos de barro seco; os uniformes com a pele, estavam totalmente incrustados desse barro. Os automóveis precipitavam-se com seus roncos em colunas cerradas esparramando esta lamentável maré de sobreviventes da grande hecatombe, mas eles não diziam nada, nem sequer gemiam porque haviam perdido a força inclusive para queixar-se. Quando esses forçados da guerra levantavam a cabeça para os telhados da aldeia se admirava neles, em seus olhares, um incrível abismo de dor e, neste gesto, suas expressões pareciam fixadas pelo pó e tensos pelo sofrimento, parecia que esses rostos mudos gritavam alguma coisa aterradora: o horror incrível do seu martírio. Alguns soldados da segunda reserva que os estavam olhando ao meu lado, permaneciam pensativos e dois deles choravam em silêncio…”

– Gaudy, subtenente, preparando-se para a substituição na batalha de Verdun em 1916.

“O odor fétido nos penetra garganta a dentro ao chegarmos na nossa nova trincheira, a direita dos Éparges. Chove torrencialmente e nos protegemos com o que tem de lonas e tendas de campanha afiançadas nos muros da trincheira. Ao amanhecer do dia seguinte constatamos estarrecidos que nossas trincheiras estavam feitas sobre um montão de cadáveres e que as lonas que nossos predecessores haviam colocado estavam para ocultar da vista os corpos e restos humanos que ali haviam.”

– Raymond Naegelen, na região de Champagne (França).

“Desenterro um poilu¹ do 270, foi fácil tirá-lo. Há todavia vários soterrados que gritam: os alemães devem ouvi-los porque metralham. Não é possível trabalhar em pé e por um momento tenho vontade de fugir, mas na verdade não posso deixar assim meus camaradas… tento desprender o velho Mazé, que segue gritando: mas quanto mais terra eu tiro, mais afunda: consigo desenterrá-lo por fim até o peito e pode respirar melhor; vou então socorrer um homem do 270 que grita também, mas debilmente, e consigo livrar-lhe a cabaça até o pescoço, enquanto ele chora e suplica que não lhe deixe ali. Estão faltando outros dois, mas não escuto nada e volto a cavar para desenterrar suas cabeças. Então me dou conta que estão mortos. Tonteio um pouco porque estou esgotado; o bombardeio continua.”

– Gustavo Hefer, 28º Regimento de Infantaria.

“Pela manhã, quando ainda está escuro, há um momento de emoção: pela entrada do nosso abrigo precipita-se uma turba de ratos fugitivos, que trepam por toda a parte a longo das paredes. As lâmpadas de algibeira alumiam este túmulo. Toda a gente grita, pragueja e bate nos ratos. Descarregam-se, assim, a raiva e o desespero acumulados durante numerosas horas. As caras estão crispadas, os braços ferem, os animais dão gritos penetrantes e temos dificuldades em parar, pois estávamos prestes a assaltar-nos mutuamente.”

– Erich Maria Remarque, página 113

“Perdemos todo o sentimento de solidariedade. Mal nos reconhecemos quando a nossa imagem de outrora cai debaixo do nosso olhar de fera perseguida. Somos mortos insensíveis que, por um estratagema e um encantamento perigoso, podemos ainda correr e matar.”

– E. M. Remarque, página 121

“Durante mais de uma hora, antes que alguém fale, ficamos estendidos, arquejantes, descansando. Estamos de tal forma esgotados que, apesar da acuidade da nossa fome, não pensamos nas conversas. Só a pouco e pouco tornamos a ser, pouco mais ou menos, seres humanos.”

– E. M. Remarque, página 123

¹ É um termo informal e amigável utilizado para indicar membros da infantaria francesa da grande guerra.

Anúncios

Primeira Guerra Mundial

Antecedentes

– Países como a Inglaterra e a Alemanha estavam extremamente descontentes com a partilha das colônias africanas e asiáticas;

– O governo de cada país industrializado procurava dificultar a expansão econômica dos demais, bloqueando seus mercados aos produtos importados e buscando impedir o crescimento do império colonial dos concorrentes;

– Movimentos nacionalistas como o pan-germanismo (pretensão de anexar à Alemanha os territórios da Europa Central onde viviam germânicos) e o pan-eslavismo (liderado, em parte pelo governo russo, desejava unir todos os povos eslavos da Europa);

– Guerra Franco-Prussiana: a França derrotada, alimentava o desejo de recuperar da Alemanha os territórios da Alsácia-Lorena, região rica em minério de ferro e carvão.

A paz armada

– Países europeus investiam pesadamente nas Forças Armadas como uma maneira de mobilizar a população com ideias de civismo e patriotismo;

– Indústria bélica se tornou um setor muito rentável para os empresários e gerou empregos.

Política de alianças

– Os governos das grandes potências firmaram tratados de aliança entre si, com o propósito de somar forças para enfrentar os rivais. Após negociações e tratados bilaterais o continente ficou dividido em dois grandes blocos:

*Tríplice Aliança: formada inicialmente por Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália (que em 1915 passa para a tríplice rival, seduzida por ter recebido promessa de compensações territoriais);

*Tríplice Entente: composta inicialmente por Inglaterra, França e Rússia;

A grande guerra

– O estopim do conflito foi o assassinato do príncipe e herdeiro do Império Áustro-Húngaro, Francisco Ferdinando;

– Investigações levaram ao criminoso: jovem integrante de um grupo sérvio chamado “mão-negra”, contrário a influência da Áustria-Hungria na região dos Balcãs;

– O Império Austro-Húngaro não aprovou as medidas tomadas pela Sérvia com relação ao crime e em 28 de julho de 1914, declarou guerra a ela.

Desenvolvimento

– As batalhas ocorreram principalmente nas trincheiras, verdadeiros buracos cavados ao longo de muitos quilômetros, que cortaram o território europeu de norte a sul, de modo que os exércitos alemães e franceses não conseguiam avançar, permanecendo assim por mais de três anos;

– As condições nas trincheiras eram as piores possíveis: escassez de água e comida, convívio com piolhos, ratazanas e muitas vezes cadáveres de colegas soldados;

– Exército alemão dispunha de armas químicas que causavam graves queimaduras e o exército inglês fazia uso de tanques de guerra;

– O avião passou a ser usado como arma bélica, mas o submarino foi um enorme trunfo alemão;

– 1915: Inglaterra e França declaram bloqueio naval à Alemanha, impedindo o recebimento de mercadorias por mar;

– 1916: Alemanha revida com seus submarinos, afundando praticamente 1/3 da frota inglesa;

– A vitória no conflito tendia para a Alemanha, até que os Estados Unidos, que anteriormente vendiam armas e alimentos para a França e a Inglaterra, entraram no conflito em abril de 1917;

– Em outubro do mesmo ano eclode na Rússia uma revolução que a obrigada a sair da guerra em dezembro, tal decisão é do governo de orientação socialista, porém o país teve de ceder vários territórios para a Alemanha;

– Contudo a participação dos EUA favoreceu a Inglaterra e a França;

– Bloqueio naval franco-inglês e guerra submarina alemã levaram fome aos países, o custo de vida decolou, os salários continuaram os mesmos e as mercadorias desapareceram das prateleiras;

– Surgiram movimentos pacifistas exigindo o fim da guerra;

– Verão de 1918: última grande ofensiva alemã contra a França, que resultou em fracasso, daí em diante alemães e austríacos acumularam derrotas;

– Tais fracassos desestabilizaram o Império Austro-Húngaro, levando à instauração da República;

– Enquanto a sociedade alemã vivia em condições precárias, Inglaterra e França recebiam ajuda material e militar dos Estados Unidos;

– Diante da derrota próxima, o novo governo alemão assinou o armístico, sem condições, em 11 de novembro de 1918;

– Presidente norte-americano Woodrow Wilson apresentou um plano para terminar o conflito mundial, um importante ponto era a criação da Liga das Nações.

A guerra acabou, o mundo mudou

– Conferência de Paris: entre vencedores e vencidos com o objetivo de chegar a um a acordo que resultasse no desarmamento alemão e na reparação das perdas materiais;

– Tratado de Versalhes: impositivo e humilhante para a Alemanha, que foi obrigada a ceder Alsácia-Lorena à França e as minas de carvão da bacia do Sarre, todas as colônias alemãs foram transferidas para domínio francês e inglês;

– Além das concessões territoriais a Alemanha teria que pagar todos aos vencedores grandes indenizações e teve todos os seus investimentos no exterior confiscados;

– Redução do exército alemão ao máximo de 100 mil homens;

– Tratado de Saint-Gemain fez o Império Austro-Húngaro deixar de existir;

– Império Otomano desmoronou dando origem a vários países;

– Liga das Nações: objetivo de garantir a paz e resolver conflitos entre países por meio de negociações e arbitramentos, estranhamente os EUA não aderira quando essa sociedade foi fundada;

– Abril de 1919: Congresso norte-americano ratificou o Tratado de Versalhes, mas não aprovou a entrada do país na Liga;

– A Sociedade (como também era chamada a Liga das Nações) conseguiu evitar conflitos armados, auxiliar refugiados etc., porém não teve sucesso em impedir guerras expansionistas.

Balanço final

– Alemanha saiu da guerra devastada;

– A Inglaterra perdeu um pouco da posição de grande potência mundial;

– EUA aceleraram sua ascensão econômica;

– Desgaste dos ideais liberais como caminho para a prosperidade das nações;

– Décadas seguintes seriam marcadas pelo confronto aberto entre partidos nacionalistas radicais e partidos comunistas vinculados à orientação soviética.

 

 

Apanhado na História – República no Ritmo das Mudanças

1895 – Primeira partida de futebol realizada no Brasil

1896 – Primeira expedição militar para combater Canudos

1897 – Fim de Canudos

1902 – Novo prefeito nomeado no Rio de Janeiro – Pereira Passos

1904 – Revolta da Vacina

1910 – Revolta da Chibata

1921 – Reação Republicana – Nilo Peçanha x Arthur Bernardes

1922 – Revolta dos 18 do Forte / Arthur B. assume a presidência

1923 – Transmissão da primeira estação de rádio no Brasil

1924 – Revolta Tenentista

1925 Formação da coluna Prestes – Miguel Costa

1926 – Washington Luís assume a presidência

1929 – Formação da Aliança Liberal – Getúlio Vargas ; João Pessoa x Júlio Prestes

1930 – Júlio Prestes vence as eleições – Assassinato de João Pessoa – Getúlio Vargas conduzido ao poder, deposição de Washington Luís

.

Imagem

 

Apanhado na História – A Primeira República

1889 – Deodoro da Fonseca assume o governo provisório da república

1890 – Rui Barbosa (Ministro da Fazenda) adota a política econômica de encilhamento

1891 – Promulgada a Constituição Republicana / Floriano Peixoto assume a presidência

1893 – Revolução Federalista e Revolta Armada

1894 – Prudente de Morais assume a presidência

1895 – Finda-se a Revolução Federalista

1898 – Negociação da dívida brasileira por Campos Sales (presidente) – “funding loan”

1902 – Rodrigues Alves assume a presidência

1906 – Inauguração da política de valorização do café – Convênio de Taubaté

1909 – Campanha Civilista – Rui Barbosa x Hermes da Fonseca

1910 – Hermes da Fonseca assume a presidência

1919 – Epitácio Pessoa assume a presidência

 

Imagem